O sangue derramado no lavatório deixou no ar o cheiro característico a ferro, intenso. A pequena lâmina que cortara a minha dor, caiu e eu acompanhei o seu movimento. Ali estava eu. Imóvel, coberta pelo meu próprio sangue, no chão frio da casa-de-banho. Sentia-me leve, como se tivessem arrancado de mim a culpa de ser quem sou. Era uma sensação de alívio. Porém, de pouca dura. Sabia que apenas por mais uns instantes conseguiria permanecer naquele transe. Eu sabia. Já nada disto era estranho para mim. Foi o mesmo sangue derramado, a mesma lâmina cortante, o mesmo corpo imóvel. E dor, novamente. Não física, pois essa já não me importava. Era a dor que sentia bem dentro de mim. Que me sufocava. Que me fazia acreditar que não merecia a vida.

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